Linguagem

Antes de me “ensinar” a falar…
(para todo pai, mãe, terapeuta, cuidador, professor, enfim, qualquer privilegiado que conviva com uma criança autista)

Falamos o que sentimos e/ou desejamos e nossa fala está sempre dirigida a alguém.

Por isso, se eu não consigo compreender o que estou sentindo, não há possibilidade de expressar isso através da fala…emoção e sentimento só se aprende com a vivência e comigo isso não é diferente. Esteja ao meu lado e nomeie o que acontece, viva comigo as diferentes experiências e me diga o que você sente, isso vai me ajudar. Quando eu gritar e chorar, posso não estar fazendo simplesmente “birra” e ao me ignorar você passa a mensagem que nem assim eu chamo a sua atenção. Ao invés de me ignorar, verbalize algo do tipo: “sei que você está com raiva, é difícil”. Dê sentido, me ajude a entender, interprete comigo as diferentes situações. Validar minhas emoções é diferente de ceder aos meus gritos e ou a choros, mantenha sua postura firme, mas me mostre que entendeu que estou chateado e diga isso para mim. Talvez assim fique mais fácil da próxima vez de eu usar palavras como “triste, chateado, raiva…etc”.

Da mesma forma, quando eu expressar minha felicidade correndo ou pulando (ou fazendo flapping ou qualquer outra forma de expressão física), não me mande parar simplesmente. Preciso dividir com alguém o que estou sentindo e esta é a minha maneira de fazê-lo. Você pode tentar transformar meus movimentos de mãos em palmas, por exemplo, me dando o exemplo de como fazê-lo e dividindo esse momento comigo. De novo, nomeie sentimentos. Uma frase do tipo “ah, você está feliz! Que bom!” e um bom sorriso num rosto alegre, me transmitem a mensagem de que estou sentindo algo bom e que posso dividir isso com você. Imagine agora que você, ao invés de sorrir comigo, se incomoda com meus pulos e/ou gritos e me diz rispidamente “pare com isso, menino”…. que conflito de sentimentos. Se você me compreende e lê minha linguagem corporal, as chances de eu querer dividir esses momentos com você são grandes e isso abre portas para a nossa interação e comunicação.

Não se engane, meu corpo, meus gestos, meu rosto, meus sons, meu olhar, lhe mostram o que eu desejo transmitir e você é meu melhor intérprete. Eventualmente, não vou mais gritar ou bater, e sim fazer uma cara feia e isso será o suficiente para você entender…até que consiga fazer o não com o dedo ou verbalizar isso através da fala…
Também vou parar de correr e pular, substituindo isso por palmas e depois por sorrisos, por exemplo, até que você me pergunte “gostou?” ou “está feliz?” e eu sorria em retribuição ou te diga que sim…
mas preciso de ajuda no começo e de alguém que me ajude no percurso de compreender e expressar minhas emoções, meus sentimentos.
Assim, na hora que eu estiver pronto para falar, já terei os símbolos e as vivências necessárias para fazê-lo.
by: Juliana Maia Lopes

6 Comentários

  • Posted March 16, 2014

    Renata Alencar Ponte

    Lindo texto! Traduz muito bem o sentido da linguagem e nos inspira a captar os seus sinais. Parabéns Juliana! Um grande abraço,

    Renata

  • Posted March 16, 2014

    Renata Alencar Ponte

    Que texto lindo! Reproduz bem o verdadeiro sentido da linguagem. Parabéns Juliana! Um forte abraço,

    Renata

  • Posted March 16, 2014

    Renata Alencar Ponte

    Que texto lindo! Reflete muito bem o
    sentido da linguagem e nos inspira a captarmos os seus sinais. Parabéns Juliana! Um abraço,

    Renata

  • Posted May 16, 2014

    Dany Teles

    Texto maravilhoso, da grande Juliana Maia! Adorei.

  • Posted May 16, 2014

    Elaine Santiago

    obrigada!
    em meio a tantas novidades e desafios, ainda me sinto perdida, mas seu texto foi direto a um ponto muito cotidiano.

  • Posted May 26, 2014

    Dany Teles

    Este comentário foi removido pelo autor.

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